Ando mórbido à beça nos últimos proferires. Mas sou saudável, tenho vida social e pratico esportes periodicamente.
Império dos imperadores
Novembro 9, 2009

Saudações alvinegras. Vencemos o Coritiba e respiramos no pior Campeonato Brasileiro dos últimos 24 anos. Desde 1985, não via algo tão desastroso e horripilante como o atual torneio futebolístico da Pátria Amada. Olha que, naquele tempo, eu vestia fraldas.
Podemos falar de coisa séria, caso seja de agrado dos presentes.
Tem livro interessante nas bibliotecas soviéticas. Chama-se O poder do império russo e a medicina.
(Falar sobre czares gelados é falar de suicídios, assassinatos, calúnias… Certo?! Bom, mais ou menos. Os famosos homicídios realengos têm, parece, muitos esclareceres. Para a tristeza dos historiadores vermelhos, nada de conspirações.)
Vejamos como alguns imperadores passaram desta a melhor.
Nicolau I, por exemplo. Para muitos, havia cometido suicídio depois de árduas bate-barbas amorosas com achego anônimo. Na verdade, atestado de óbito revela que o primeiro dos Nicolais foi-se depois de contagiar pneumonia. Derrota russa nos campos da Criméia deixou-o deprimido e predisposto a doenças.
Daí, veio Alexandre II. Morto por terroristas em Petersburgo. Acreditava-se que o sangue azul teria falecido no local. Mas revelações forenses mostram que suspirou até breves depois de os médicos não terem fechado corretamente a artéria femoral.
Outro que nadou em boatos foi Alexandre III. Alcoolismo?! Que nada. Morreu de problemas cardiovasculares e fadiga.
Cesarevich Alexey, lembra-se dele? Então, pobre moço. Aos pintores, rosado e imortal. Nas dependências dos palácios reais, triste e combalido.
Pensar que estórias efêmeras não deitam apenas nos céus das brasílias. Só me resta dúvida: é mais fácil criá-los ou destroná-los?
Justo este, que pouco pondera depauperamentos.
Nas beiradas
Novembro 6, 2009
Quando eu falei sobre orgulho russo, todos duvidaram. Agora, duvidar da coragem daquele povo…
A cereja do bolo fica com Leon Tolstoi. Em homenagem clara ao romancista da futura geração passada, que atende pela alcunha de Paulo Paniago.
Amor começa quando pessoa se sente só e termina quando pessoa deseja estar só.
Descortesia da casa
Novembro 5, 2009Chove tanto que, às vezes, até eu sinto falta do Sol. Mandei carta aos amigos. Falei sobre coisas existenciais. Que estou bem. Que parei de beber, outra vez.
Sinto pena deles, dos episódios que vivem. Pois, de mim, tenho do. Chega, dói pensar em vida.
“Mãe. Hoje eu me cortei com o canivete da Norinha. Fez machucado. Parece que não vai sarar.”
Eu, por exemplo, nunca fui de discorrer sobre morte. Essas coisas ruins costumam atrair fantasmas. E não sei vocês, mas… Morro de medo dos fantasmas.
Nem me venha com aquela de “só temo os vivos”.
Outro dia, experimentei trocar idéia com sujeito do além. Jean Napolean, nomeie-o. Sim, sim. Bela mistura entre Jean Valjean e Napoleon Bonaparte. Este último, no caso, com grafia correta.
Napolean era francês, bigode, roupas do século XVIII e duas belas moças. Moças que, provável, exerciam qualquer tarefa parecida com a circunvizinhança expurgada.
Foi breve. Pelo visto, tempo é artigo precioso até no reino dos lençóis flutuantes.
Não fazia frio. Já era noite e nossa casa estava sem luz. Lembro-me que ventava muito quando Jean mostrou-se à janela, com as senhoritas servidoras.
Rapaz introvertido, pensei. Deve sacar que tenho pânico dos jazidos.
Camaradas, nunca mais hei de abandoná-los desse jeito!
“Tenho veículo automotivo e estou com vontade de passar por cima de certos alguns. Hoje, se possível.”
Frase dita por figura seminarista que habita lado direito do meu cérebro, após leitura textual de Theodor Adorno.
Faço aquele tipo estranho de ter preguiça quando o assunto é fazer alguém sorrir por amor.
Deu nos jornais que o mundo vai acabar em 2012. Achei tremenda falta de respeito com nosso Brasil. Cara, e a Copa?! Olimpíadas?! Depois, falam que Deus é brasileiro.
Paká, paká!
Escoro
Agosto 29, 2009Não estou aqui para fazer papel de messias da comunicação social. Não sou Howard Beale. Meus 8.652 dias de vida permitem apenas falar que o mundo das mídias tradicionais está complicado à beça.
Tubo quadrado nas salas dos humanóides, telespectadores, ilusionistas. A levar certezas absolutas através de sensacionalismo barato e covarde. Caixa verdadeira, companhia para qualquer hora. E nossas vidas pautadas por indivíduos que venderiam a própria genitora por alguns pontos de audiência.
Cascavel estende-se até os papéis. Nas ondas do rádio. Falando o que você quer ver, mostrando o que você quer escutar. Descobre-se que nada, nada disso é verdade. Pára-se de confiar na vida, na gente, em si mesmo.
Pois! Mundo anda mesmo difícil. Quem morreu? Quem foi demitido? Quem vai ficar com quem na novela das 6… Beale estava certo. E começam a crer nas alucinações. Que a caixa é a realidade. E a vida?! Bom, a vida é apenas detalhe irreal que, de vez em quando, precisamos prestar cuidados.
Veste-se televisão, come-se mídia, educa-se na televisão, pensa-se mídia! É religiosa, revolucionária, derruba presidentes, gera presidentes, proclama Papa… E daí?!
Aqui na Rússia, apenas 9,6% da população lê jornal. A revista mais vendida chama-se “Dom v Sadu” (Casa de Campo). Papelada que dá dicas de como cuidar das dachas – lugarejo campestre dos nativos. Estima-se que mais de 500 mil cópias são vendidas a cada exemplar publicado.
Conseqüência. Ninguém usa máscara para se proteger da gripe dos porcos. Epidemia (sic!) que já matou milhares de pessoas no mundo todo, certo?! Oh! Que horror! Olhe para a África. Olhe para o Brasil, interior nordestino. Isso sim, amigos. Isso sim é surto.
Talvez os russos já tenham inventado a vacina mais eficaz contra suínos enlouquecidos: doses diárias de não acreditar em tudo que falam por aí.
Referências
Network (1976) – dirigido por Sidney Lumet e produzido por Howard Gottfried. Howard Beale, citado no texto, é personagem da trama.
TNS Gallup – empresa especializada em pesquisa de mercado.
Vida soviética
Agosto 22, 2009
[Parte I – a ida]*
Jornada começou cedo. Mais especificamente às 5h47 da manhã. Acordamos para o café e abastecemos energia com suculento butterbrod (sorte de misto frio russo). Daí, líquidos açucarados deram glicosídeos para longo dia que nos esperava adiante. Frutas do campo, chá vermelho, verde, coisas desta natureza.
Éramos três. Tatiana, Giovanni e eu. Moça é dona do apartamento no qual vosso narrador descansa as patas brasileiras. Giovanni é italiano e veio morar com a gente há pouco mais de dois dias. Fato que me fez parabenizá-lo, inclusive. Pela coragem instantânea, tals. Tipo engraçado, com sangue latino e porte de quem já trabalho para a máfia milanesa.
Senhoras e senhoras. À Dacha, nós fomos. Sítio veraneio das famílias russas, cheio de cedros, lagos e crianças brincando na floresta.
Tatiana é dama chistosa. Típica moradora de Petersburgo. Sorridente, tem lá seus 54 anos (nunca perguntei idade, acho feio). Decidiu que já era tempo de plantar qualquer espécie nova no território campestre. Decorrência: dois sacos com 6 kg de adubo carregados por mim e Giovanni.
Saímos de casa às 7h e passamos num simpático mercado, três quadras, à direita. Nas sacolas, além dos fertilizantes, produtos para churrascos e bebidas – uns separados dos outros, obviamente. Achei isso bacana à beça. Não bastasse a experiência singular, assado russo nos cairia muito bem.
Distintos camaradas. Simpatia trata-se de eufemismo para “mercado pequenino”. Dois marmanjos com sacolas, perambulando pra lá e pra cá. E Tatiana na correria: “Vamos, garotos! Temos pouco tempo! Vamos, vamos…”
*Primeira história da tríade sobre o dia em que me tornei um semi-russo-campestre.
Bem, passado
Agosto 21, 2009
INFORMAÇÕES SOBRE O VÍDEO
Paulo Renato Souza Cunha
Música: Droga, mãe, acabou a fita
Disco: Pra gente que tem pressa
Em Moscou, Rússia.
Nada de oficialidades. Mês aí, gravei disco solo sobre Rússia e russos. Pra gente que tem pressa. Mandei ao amigo que gosta das palavras, locatário de Santo André (Sampa). Resultado foi belíssima resenha com coisas que despontaram da minha cabeça tanto quanto acamada.
APRESSADOS
Por { Pelvini }
Ainda este ano tive um sonho bizarro: não exatamente assustador, mas tão estranho que não consegui descrevê-lo com palavras para as outras pessoas, tendo que, literalmente, desenhá-lo para poder explicá-lo.
Dizem os estudiosos que a gente sonha todas as noites, mas nem sempre se lembra. A bem da verdade dá pra contar nos dedos das mãos os sonhos e pesadelos que realmente marcaram, não é mesmo? E mesmo assim, a atmosfera que envolve a lembrança de um sonho é frágil como bolha de sabão. Pelo menos comigo é assim.
O fato é que o sonho em questão teria facilmente entrado para o rol dos esquecidos se não fossem os acontecimentos recentes: desde aquele review pro álbum do Disco Alto – vale dizer que foi um dos textos mais marcantes para mim – venho acompanhando o blog pessoal do baterista da banda, o brasiliense Paulo Renato.
Rapaz com coração de artista, Paulo Renato não hesita em estender sua visão inusitada para além da música: não só fotografa como também escreve muito bem. O mais interessante? Bom, a temática pessoal do Paulo Renato – o Pierre – é a Rússia. Lembra-se no ensino médio, quando Manuel Bandeira foi-se embora pra Pasárgada? Então, Paulo Renato foi-se embora pra Rússia.
O que nos traz de volta ao meu sonho. Dentro dele, eu escalava as paredes de um castelo engraçado – um Kremlin! – e escalava na maior facilidade. Quando eu chegava no topo alto e xadrez colorido de uma das torres, tinha a visão lá de baixo, um jardim de sebes coloridas, que mais pareciam um tapete persa gigante. “Eu posso voar daqui, se quiser” – pensei, com a tranquilidade que só o irreal pode proporcionar. E o status “bizarro” do sonho se dá pelo que aconteceu dali em diante.
Porque quando eu pulei da torre, rumo a um voo inesquecível, surgiu um outro Kremlin exatamente igual do outro lado – só que este novo estava de ponta-cabeça. Exato: não satisfeito em se duplicar, o sonho também virou tudo de cabeça pra baixo. O que era bem sacana, pois eu já estava no ar e agora o chão era céu e o céu era chão – o tapete persa colorido estava entre as nuvens – o que tornava “subindo para baixo” e “caindo para cima” expressões muito verdadeiras, ainda que pouco plausíveis.
Evidente que acordei antes de tocar o céu que era chão ou vice-versa. E, ao acordar, o sonho já tinha título pois o castelo duplicado ao contrário era um Kremlin, oras: “sonho bizarro em russo”. Dava até nome de comunidade estranha do orkut.
Muito longe daqui, na Rússia, Pierre nunca chegou a saber dessa amalucada história, até porque, como eu disse, na época eu só conseguia explicar desenhando. No entanto, uma coisa inesperada aconteceu: você acha possível alguém inventar a trilha sonora de um sonho que era só seu? Bom… Por causa do Pierre, lá na Rússia, isso aconteceu.
Pra gente que tem pressa é o álbum criado na mente de Pierre e passado à existência pelo programa FL Studio 8, instalado no notebook do baterista lá no seu quarto russo. Como gosta de deixar claro, esse é seu primeiro trabalho solo e também sua primeira incursão musical apenas com um software – e longe de seu instrumento favorito, a bateria.
Capaz de emular e administrar sons, timbres e barulhos, funcionando como um estúdio musical caseiro, o FL Studio tem suas óbvias limitações mas pode fazer maravilhas – sobretudo nas mãos de quem entende de música.
E esse é o caso de Pierre. Entendendo até onde o programa poderia chegar, e livre de maiores pretensões, ele concebeu seu álbum sob a perspectiva da bateria – ainda que uma bateria sonhada por um software. Pra gente que tem pressa, então, tem um ritmo bem demarcado.
Demonstrando-se meticuloso, Pierre trabalhou para que os barulhos do FL Studio se parecessem o máximo possível com o real. O resultado vai de encontro com os sons físicos, mas a inevitável artificialidade dão ao trabalho a cara de projeto eletrônico que lhe cabe.
Honrando o título, Pra gente que tem pressa é um disco de faixas bastante curtas, todas vislumbres das baladas oitentistas que minha geração não frequentou. Essa brevidade – algo meio aperitivo – já me fez torcer por um próximo álbum. Com a proposta do clima em russo, Pierre se desgarra do estilo que lhe é familiar – o post-rock – e faz um disco que se encaixa nas vertentes da IDM (Inteligent Dance Music), ainda que seja mais melódico em Duas músicas mais ou menos assim, São Peter é burgo e em Droga, mãe, acabou a fita. Porém é terrivelmente contemplativo em Biscoito de leite russo e super cerebral em Nick Lauda, o maior vencedor de todos os tempos.
Cerebral… Tá aí. Os sonhos vêm do coração, mas as imagens são fabricadas pelo cérebro. E, ao passo que um pesadelo parece durar horas, um sonho bom dá a impressão de minutos e segundos contados. E esse Pra gente que tem pressa é bem assim: curto, mas dos bons. Cheio de significados subjetivos e particulares – como se ouve em Marianna -, o disco do Pierre acabou fazendo um sentido muito particular pra mim. Nick Lauda, o maior vencedor de todos os tempos era a música que tocava no meu sonho do Kremlin inverso.
Porque Pra gente que tem pressa é um disco mais curto que uma lembrança e mais longo que um pensamento, ainda que tenha a forma e o tamanho exatos de um sonho – em russo. { Pelvini }
(…)
P.S.:
Baixem o Pra gente que tem pressa aqui. Tranqüilos, prometo não processar ninguém.
Sonoros
Agosto 18, 2009Sabe. Aqueles dias românticos. Escuta-se música com letra bonitinha e instrumental meloso. Gente que não sabe gostar de alguém costuma chamar isso de chatices do coração.
Ciclo e irreversível
Agosto 16, 2009Tempo é flecha permanente. Não volta. Mas, flecha eterna que aponta ao horizonte. E surgirá, paradoxal: “Ei, você morre!” Quando a desordem desordenada vence a razão. Choramos pela entropia. Pedimos, desesperados: “Georg Ferdinand Ludwig Phillip Cantor.” Por quê? Por que nos abandonou?
Escrito por Paulo Renato Souza Cunha
Escrito por Paulo Renato Souza Cunha 
Escrito por Paulo Renato Souza Cunha 
